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Mutações de cor do canário: dois genes que matam em dose dupla

O canário é o mais distinto das aves de gaiola — porque foi criado não para um só fim, mas em três direções separadas: pelo seu canto, sua cor e sua forma. Por isso suas mutações se espalham também por esses três ramos. Mas o mais marcante é um alerta: as duas características mais famosas do canário matam em dose dupla — igual ao gene do tufo da Araucana que tratamos nas galinhas.

Apresentamos as três regras de herança da genética da cor (recessiva, dominante, ligada ao sexo) nos nossos artigos de mutações do periquito e da calopsita. As mesmas regras valem aqui; o que distingue o canário são seus genes dominantes letais.

As três direções do canário

Antes de julgar um canário é preciso saber a que linhagem ele pertence, porque as mutações ganham sentido diante dessas linhagens:

Direção de criaçãoO que se julgaRaças de exemplo
CantoA estrutura e a melodia da vozRoller, Waterslager, Timbrado espanhol
CorCor de fundo + padrão de melaninaFator vermelho, amarelo, branco, ágata, isabel
Forma/posturaCorpo, estrutura de pena, topeteBorder, Gloster, Fife, frisado, topetudo

A maioria das mutações está nas linhagens de cor e forma; o canto é, em grande medida, um assunto à parte (abaixo).

Genética da cor: fundo e melanina

A cor do canário também é feita de duas camadas — a mesma lógica do periquito e da calopsita:

  • Cor de fundo (lipocromo): amarelo (selvagem), branco ou vermelho
  • Padrão de melanina: preto/verde (selvagem), e variedades como pardo, ágata e isabel

Algumas das mutações de melanina diluem a melanina ou a tornam parda; poucas delas (ino, pastel, a diluição ágata/isabel) são ligadas ao sexo — então a lógica de "ler o sexo pela cor" que vimos no periquito e na calopsita funciona em parte também no canário. Para a regra completa veja nosso artigo de mutações do periquito.

A seção estrela: dois genes letais

Isto é o que torna o canário especial nesta série. Suas duas características mais queridas — um fundo branco dominante e um topete — são cada uma um gene dominante letal em dose dupla. Ou seja, uma cópia do gene embeleza a ave; duas cópias matam o embrião.

Branco dominante

O canário tem dois tipos de branco: branco recessivo (inócuo) e branco dominante. No branco dominante uma única cópia torna a ave branca; mas duas cópias (branco/branco) são letais — esses embriões não se desenvolvem. Por isso nunca se cruza branco dominante × branco dominante; sempre se acasala branco × amarelo. Do contrário perde-se um quarto dos ovos (a cópia dupla letal).

Topete (crest)

A mesma regra rege os canários topetudos (por exemplo a "Corona" do Gloster): o gene do topete forma uma bela coroa em uma única cópia, mas duas cópias (topetudo × topetudo) são letais. Por isso um canário topetudo é sempre acasalado topetudo (crest) × cabeça lisa (crestbred) — nunca topetudo × topetudo. No Gloster isso é o cruzamento "Corona (topetudo) × Consort (cabeça lisa)".

A mesma regra que a Araucana

Esses dois exemplos se comportam exatamente como o gene do tufo da Araucana nas galinhas: um gene dominante que adorna em uma cópia e mata em duas. A regra prática é a mesma nos três: nunca acasale dois portadores de um gene dominante letal. Se o fizer, mesmo um plantel de aparência ideal dará uma baixa taxa de eclosão — porque um quarto dos ovos se perde logo de início.

O canário vermelho: não uma mutação, mas híbrido + dieta

O canário "fator vermelho" não é, na verdade, uma mutação do canário. O gene vermelho foi introduzido no canário por hibridação com outra espécie — o cardeal-do-nordeste (pintassilgo-vermelho). E o gene sozinho não basta: para o vermelho aparecer, a ave deve receber uma dieta rica em carotenoides (alimentação de cor). Sem ela, um canário fator vermelho fica de um laranja pálido.

Então o canário vermelho é um caso curioso em que a genética e a dieta trabalham juntas: carregar o gene certo é necessário, mas não suficiente. Preferir fontes naturais na alimentação de cor (verduras e frutas ricas em betacaroteno) é mais seguro para a saúde do que aditivos sintéticos.

O canto: a característica do canário que não é uma mutação

A característica mais famosa do canário — seu canto — não é uma mutação de cor. O canto é ao mesmo tempo genético e aprendido: um macho jovem aprende seu canto ao crescer ouvindo um macho "tutor". Um Roller canta suave com o bico fechado, um Waterslager evoca o som da água e um Timbrado espanhol é metálico e rápido. Ao selecionar essas linhagens, a cor e a forma ficam em segundo plano; por isso um bom cantor pode ser de cor apagada, e uma ave de bela cor pode cantar mal.

Sexar o canário

O sexo é difícil de distinguir a olho no canário; o sinal mais confiável é o canto (um cantor elaborado e contínuo costuma ser macho). Na época de criação a forma da cloaca dá uma pista, e para a certeza usa-se um teste de DNA. Se uma mutação de melanina ligada ao sexo (como ino/pastel) for usada, também dá para ler o sexo pela cor com a lógica da autossexagem vista no periquito. Para o equivalente do mesmo sistema ZW na galinha, veja nosso artigo de como saber o sexo dos pintinhos.

Para iniciantes

Se você é novo na criação de canários, a regra número um a ter em mente é a regra de acasalamento dos genes letais. Acasale sempre uma ave branco dominante com uma amarela, e uma topetuda com uma de cabeça lisa. Para uma linhagem de cor, o amarelo e o branco são pontos de partida limpos; se o canto lhe interessa, lembre-se de que sem um bom macho "tutor" os filhotes não cantarão bem.

Você encontrará o processo de incubação e nidificação no nosso artigo de incubação de aves de gaiola, e a lógica da seleção de criação e do pedigree no nosso artigo de criação de pássaros de gaiola. Para não perder a conta do calendário de acasalamento–postura–eclosão, o app Kuluçka Takip cria lembretes. Você pode conferir o app aqui.

Os outros artigos da série: mutações de cor do periquito e mutações de cor da calopsita.

Perguntas Frequentes

Em quantas direções o canário é criado, e como suas mutações se agrupam?

O canário é criado em três direções separadas: canto (Roller, Waterslager, Timbrado), cor (fator vermelho, amarelo, branco, ágata, isabel) e forma/postura (Border, Gloster, Fife, frisado, topetudo). As mutações de cor dividem-se em fundo (lipocromo) e melanina, e seguem as três regras: recessiva, dominante, ligada ao sexo.

Por que não se deve cruzar canário branco dominante × branco?

Porque o gene do branco dominante é letal em dose dupla. Uma cópia torna a ave branca, mas duas cópias (branco/branco) matam o embrião. Por isso sempre se acasala branco × amarelo; se você fizer branco × branco, cerca de um quarto dos ovos (a cópia dupla letal) não eclode.

Há um gene letal no canário topetudo?

Sim: o gene do topete também é dominante e letal em dose dupla. Num cruzamento topetudo × topetudo, um quarto dos filhotes herda a cópia dupla letal. Por isso um canário topetudo é sempre criado topetudo × cabeça lisa (crestbred); no Gloster é o cruzamento Corona × Consort.

O canário vermelho é uma mutação natural, e como se obtém?

O fator vermelho não é uma mutação do canário; o gene vermelho foi introduzido hibridando o canário com o pintassilgo-vermelho. E o gene sozinho não basta: para o vermelho aparecer, a ave deve receber uma dieta rica em carotenoides (alimentação de cor). Sem ela, a ave fica de um laranja pálido.

Dá para saber o sexo de um canário?

É difícil a olho; o sinal mais confiável é o canto (um cantor elaborado e contínuo costuma ser macho). Na época de criação a forma da cloaca dá uma pista, e para a certeza usa-se um teste de DNA. Quando uma mutação de melanina ligada ao sexo (ino/pastel) é usada, também dá para ler o sexo pela cor.

Qual a diferença entre canários amarelos, brancos e vermelhos?

É uma diferença de "cor de fundo" (lipocromo). O amarelo é a cor selvagem; o branco é a ausência de pigmento de fundo (branco recessivo ou dominante); o vermelho é a cor de fundo que veio do pintassilgo-vermelho e se revela com a alimentação de cor. O padrão de melanina (como ágata, isabel) monta-se por cima à parte.

O canto do canário é genético ou aprendido?

Ambos. A base do canto é genética, mas um macho jovem aprende sua melodia ao crescer ouvindo um macho "tutor". Sem um bom tutor, nem mesmo os filhotes com boa genética cantarão bem. Por isso, nos canários de canto, o ambiente de criação importa tanto quanto a genética.

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